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Psicop@t@s da Internet

a pedido de Renata Savoini
por Branco Leone
    psicopata. [De psic(o)- + -pata.] Adj.2g. 1. Que sofre de doença mental ou de personalidade psicopática [q.v.] 2. Portador de psicopatia
    psicopatia. [De psic(o)- + -pat- + -ia.] S. f. 1. Designação comum às doenças mentais • 2. Psiq. Estado mental patológico caracterizado por desvios que acarretam comportamentos anti-sociais • 3. Med. Psicose
    internet. [De inter- + -net.] S. f. 1. Ambiente propício ao desenvolvimento de psicopatas

 

    — Alô? — ele atende.
    — Oi, Picanha. — ela arfa.
    — Quem está falando? — ele pergunta.
    — Sou eu, Picanha. — ela arfa.
    — Eu quem? — ele não reconhece.
    — A Altiva. — ela arfa.
    — Altiva?
    — Isso mesmo. Não se lembra? — ela arfa.
    — Altiva... Altiva... — ele procura na memória — Ah, sim! Do chat de ontem à noite? — ele se recorda.
    — Eu mesmo, Picanha. — ela arfa.
    — Mas... eu lhe dei meu telefone? — ele pergunta.
    — Não, Picanha. — ela arfa.
    — Você está gripada? Por que você fala assim? — ele estranha.
    — Não estou gripada, Picanha. É tesão... — ela explica e arfa.
    — Então segura um pouco a onda, que você está me assustando. — ele pede.
    — Assustando você, Picanha? — ela pergunta arfando — Não tenha medo, meu totoso. Eu quero você. — ela arfa.
    — Como você descobriu meu telefone?
    — Pelos indícios.
    — Que indícios?
    — Da nossa conversa de ontem pelo chat.
    — Mas eu menti o tempo todo. Que indícios você conseguiu dali?
    — Fui cruzando as informações.
    — Como você pôde ir cruzando mentiras e chegar ao meu telefone?
    — Quer mesmo saber?
    — Ora, é claro que eu quero saber. E pare de bufar no telefone, que inferno!
    — Não fale assim, Osvaldo... — ela responde séria, sem arfar.
    — Você sabe meu nome?
    — Sei. Nome e sobrenome. Descobri logo antes de descobrir seu número...
    — E como você descobriu meu nome?
    — Você me disse que era médico.
    — Mas não sou.
    — Eu sei. Desconfiei.
    — Por quê?
    — Porque você me disse, enquanto a gente transava...
    — Eu não transei com você!
    — Ah, totoso — ela recomeça a arfar — sexo virtual é sexo...
    — Só na sua cabeça! E totoso é o raio que a parta!
    — Então, enquanto a gente transava, você disse que me deixaria toda roxa...
    — E daí?
    — Daí que um médico nunca diria isso. Diria "hematomas".
    — Que raciocínio estúpido! Mas e então, que mais?
    — Você disse que trabalhava no Einstein.
    — Era mentira.
    — Eu saquei. Você escreve muita coisa errado.
    — E daí?
    — Daí que uma pessoa que escreve como você, não passaria na admissão de um hospital chique como o Einstein.
    — E então?
    — Então eu achei que você trabalhava no Hospital das Clínicas, que é uma esculhambação. E gostei disso.
    — Gostou?
    — Gostei. Trabalhando no HC, tinha tudo pra ser um pé-rapado. E sendo pobre, devia ter pau grande.
    — Que absurdo.
    — Você tem pau grande, totoso? Você é um daqueles brutamontes do HC?
    — Ora, meta-se com a sua vida. Eu podia trabalhar em outro hospital. Podia nem trabalhar num hospital, sua maluca!
    — Podia. Mas você me disse que ia abrir minhas pernas até a bacia estalar.
    — E daí?
    — Era muita anatomia pra alguém que não fosse da área.
    — Que absurdo...
    — Daí, eu concluí que você trabalhava na ortopedia do HC.
    — Meu Deus, por quê?
    — Porque você me disse que seu pau estava duro como gesso.
    — Ah, não!
    — Ah, sim!
    — E depois? — ele continuou.
    — Depois foi só telefonar pra Dona Arminda e perguntar quem estava de plantão ontem à noite.
    — Dona Arminda? A bruxa do RH? Você a conhece?
    — Conheço.
    — E o que ela disse?
    — Que tinha um monte de gente trabalhando: três mulheres e quatro homens. Pedi o nome dos homens, mas deu no mesmo, nenhum nome se encaixava com nada. Daí perguntei se ela sabia os apelidos deles.
    — Ai, meu Deus...
    — Pois é, ela disse que só um tinha apelido, e que o pessoal o chamava de Tchê porque era gaúcho.
    — E daí?
    — Quando ela falou "gaúcho", eu soube que era você.
    — Por quê?
    — Ora! Gaúcho, Picanha, tudo a ver...
    — Mas eu estava trabalhando.
    — Estava, mas nem tanto. Desconfiei que estivesse de plantão, porque você saía de vez em quando. E ontem foi quarta-feira, noite parada na ortopedia. A pauleira é sexta e sábado. E aí, tudo se encaixou.
    — Se encaixou nada! Você é doida varrida!
    — Não fale assim, totoso.
    — Totoso é o diabo que a carregue! E mesmo com todos esses indícios, ainda podia não ser eu.
    — Podia, mas se você estivesse em casa agora de manhã, aumentava a chance. E você estava.
    — Pois é, eu estou.
    — E se lembrasse do meu nome, como lembrou, era você mesmo.
    — Pois é. Me pegou.
    — Peguei.
    — E agora, o que você quer de mim?
    — Ora, que ingenuidade a sua! Eu só quero que, no seu próximo plantão, sexta-feira à noite, a gente dê uma boa trepada lá no escuro da ortopedia, pelo meio dos esqueletos... ouvindo os gritos dos acidentados no corredor... — faz uma pausa para arfar um pouco mais — Se você não quiser, eu conto pra Dona Arminda que você passa os seus plantões no computador, em salas de chat.
    — E por que a Dona Arminda ia acreditar em você?
    — Porque eu também trabalho no HC, e sou chefe de departamento.
    — Que departamento?
    — Ora, totoso, da psiquiatria...

Imagem: Anthony Perkins em cena do filme Psicose, de Alfred Hitchcock

 

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