psicopata.
[De psic(o)- + -pata.] Adj.2g. 1. Que sofre de
doença mental ou de personalidade psicopática [q.v.] 2. Portador de
psicopatia
psicopatia. [De psic(o)- + -pat-
+ -ia.] S. f. 1. Designação comum às doenças
mentais 2. Psiq. Estado mental patológico caracterizado
por desvios que acarretam comportamentos anti-sociais 3. Med.
Psicose
internet. [De inter- + -net.]
S. f. 1. Ambiente propício ao desenvolvimento de psicopatas
Alô? ele atende.
Oi, Picanha. ela arfa.
Quem está falando? ele pergunta.
Sou eu, Picanha. ela arfa.
Eu quem? ele não reconhece.
A Altiva. ela arfa.
Altiva?
Isso mesmo. Não se lembra? ela arfa.
Altiva... Altiva... ele procura na memória
Ah, sim! Do chat de ontem à noite? ele se recorda.
Eu mesmo, Picanha. ela arfa.
Mas... eu lhe dei meu telefone? ele
pergunta.
Não, Picanha. ela arfa.
Você está gripada? Por que você fala assim?
ele estranha.
Não estou gripada, Picanha. É tesão...
ela explica e arfa.
Então segura um pouco a onda, que você está me
assustando. ele pede.
Assustando você, Picanha? ela pergunta
arfando Não tenha medo, meu totoso. Eu quero você. ela arfa.
Como você descobriu meu telefone?
Pelos indícios.
Que indícios?
Da nossa conversa de ontem pelo chat.
Mas eu menti o tempo todo. Que indícios você
conseguiu dali?
Fui cruzando as informações.
Como você pôde ir cruzando mentiras e chegar ao
meu telefone?
Quer mesmo saber?
Ora, é claro que eu quero saber. E pare de bufar
no telefone, que inferno!
Não fale assim, Osvaldo... ela responde
séria, sem arfar.
Você sabe meu nome?
Sei. Nome e sobrenome. Descobri logo antes de
descobrir seu número...
E como você descobriu meu nome?
Você me disse que era médico.
Mas não sou.
Eu sei. Desconfiei.
Por quê?
Porque você me disse, enquanto a gente
transava...
Eu não transei com você!
Ah, totoso ela recomeça a arfar
sexo virtual é sexo...
Só na sua cabeça! E totoso é o raio que a
parta!
Então, enquanto a gente transava, você disse que
me deixaria toda roxa...
E daí?
Daí que um médico nunca diria isso. Diria
"hematomas".
Que raciocínio estúpido! Mas e então, que mais?
Você disse que trabalhava no Einstein.
Era mentira.
Eu saquei. Você escreve muita coisa errado.
E daí?
Daí que uma pessoa que escreve como você, não
passaria na admissão de um hospital chique como o Einstein.
E então?
Então eu achei que você trabalhava no Hospital
das Clínicas, que é uma esculhambação. E gostei disso.
Gostou?
Gostei. Trabalhando no HC, tinha tudo pra ser um
pé-rapado. E sendo pobre, devia ter pau grande.
Que absurdo.
Você tem pau grande, totoso? Você é um daqueles
brutamontes do HC?
Ora, meta-se com a sua vida. Eu podia trabalhar em
outro hospital. Podia nem trabalhar num hospital, sua maluca!
Podia. Mas você me disse que ia abrir minhas
pernas até a bacia estalar.
E daí?
Era muita anatomia pra alguém que não fosse da
área.
Que absurdo...
Daí, eu concluí que você trabalhava na
ortopedia do HC.
Meu Deus, por quê?
Porque você me disse que seu pau estava duro como
gesso.
Ah, não!
Ah, sim!
E depois? ele continuou.
Depois foi só telefonar pra Dona Arminda e
perguntar quem estava de plantão ontem à noite.
Dona Arminda? A bruxa do RH? Você a conhece?
Conheço.
E o que ela disse?
Que tinha um monte de gente trabalhando: três
mulheres e quatro homens. Pedi o nome dos homens, mas deu no mesmo, nenhum nome se
encaixava com nada. Daí perguntei se ela sabia os apelidos deles.
Ai, meu Deus...
Pois é, ela disse que só um tinha apelido, e que
o pessoal o chamava de Tchê porque era gaúcho.
E daí?
Quando ela falou "gaúcho", eu soube que
era você.
Por quê?
Ora! Gaúcho, Picanha, tudo a ver...
Mas eu estava trabalhando.
Estava, mas nem tanto. Desconfiei que estivesse de
plantão, porque você saía de vez em quando. E ontem foi quarta-feira, noite parada na
ortopedia. A pauleira é sexta e sábado. E aí, tudo se encaixou.
Se encaixou nada! Você é doida varrida!
Não fale assim, totoso.
Totoso é o diabo que a carregue! E mesmo com
todos esses indícios, ainda podia não ser eu.
Podia, mas se você estivesse em casa agora de
manhã, aumentava a chance. E você estava.
Pois é, eu estou.
E se lembrasse do meu nome, como lembrou, era
você mesmo.
Pois é. Me pegou.
Peguei.
E agora, o que você quer de mim?
Ora, que ingenuidade a sua! Eu só quero que, no
seu próximo plantão, sexta-feira à noite, a gente dê uma boa trepada lá no escuro da
ortopedia, pelo meio dos esqueletos... ouvindo os gritos dos acidentados no corredor...
faz uma pausa para arfar um pouco mais Se você não quiser, eu conto pra
Dona Arminda que você passa os seus plantões no computador, em salas de chat.
E por que a Dona Arminda ia acreditar em você?
Porque eu também trabalho no HC, e sou chefe de
departamento.
Que departamento?
Ora, totoso, da psiquiatria...
Imagem: Anthony
Perkins em cena do filme Psicose, de Alfred Hitchcock
|