Jornal Entre Lagos
Jornal de bairro de Brasília, distribuído gratuitamente na região dos lagos. Tem nomes como Alexandre Garcia, Ricardo Noblat, Monica Waldvogel, Valéria Monteiro entre seus colaboradores.

Os textos que publicava na página 3 são crônicas (ou coisa parecida), alguns inéditos, outros retirados do blog depois de pequenas adaptações.

Nº 37, jan/06
O bom exemplo dos loucos

Sou paulista e paulistano. Posso ainda piorar — ou não — sua opinião, dizendo que, além disto tudo, ainda sou são-paulino, informação que não tem absolutamente nada a acrescentar ao assunto deste texto, e que aqui foi posta apenas para esticá-lo um pouco mais. O que importa é que, a toda hora, mesmo tendo nascido e vivido neste lugar excomungado, me pego assistindo a um desses documentários exibidos pelas emissoras que só exibem documentários e, ao ver um beduíno ou um esquimó, pergunto-me: "Como é que alguém pode viver num lugar desses?"
Ao proferir a questão, creio que dou provas da mesma amnésia e da mesma demência que se abate sobre beduínos e esquimós, que vivem, cada um, em lugares tão diferentes, mas tão inóspitos quanto o que me é natal.
Então vinha eu, descendo uma avenida dessas que temos por aqui: eixo norte-sul, cinco pistas de carros que, quase parados, escarneciam dos radares. Congestionamento pesado, o marasmo interrompido apenas pelos motoboys que, como sempre, passavam entre os carros como machados sem cabo, desafiando os bons-sensos e as auto-estimas, as deles e as dos idiotas que vão nos carros, metidos em roupas européias cozinhando ao sol tropical, flambados em óleo diesel sobre o asfalto.

Num ponto em que avenida faz uma curva — para quem conhece, é na chegada da 23 de Maio ao Obelisco —, a avenida se separa em dois, e as duas pistas da direita mergulham no túnel que passa por baixo do Parque do Ibirapuera. A divisão é feita por uma faixa pintada no chão, um triângulo comprido que começa fininho numa ponta, e que vai se alargando até que tenha aberto distância suficiente para separar os dois caminhos.
Pois ali, no bico do triângulo, no meio dos dois rios de carros, com os calcanhares ainda sobre a faixa — lembrava a atriz do Titanic, mas sem o Leonardo di Caprio por trás —, as mãos na cintura e expressão irritada, como se aqueles carros tivessem resolvido, subitamente, desviar seu caminho e passar por dentro de sua cozinha, estava um mendigo. Sujo, descabelado, olhar maluco, deixava que todos lessem cobras e lagartos nos seus olhos que, apertados, seguravam a raiva que sentia, para que pudesse despejá-la aos poucos na avenida.
Ao vê-lo, percebi que nunca vi mendigos, enfurecidos ou não, nos documentários sobre esquimós ou beduínos. Triste situação esta, em que precisamos que os dementes nos dêem o exemplo do que fazer, de como sentir, de como reagir a este ambiente inviável.
E viva o São Paulo, que é tricampeão mundial?

 

Nº 36, dez/05
Informar? Melhor reformar...
Caso 1
Outro dia, na rádio CBN, um dos mais respeitáveis órgãos de imprensa que conheço, ouvi, antes da transmissão de um clássico, um jornalista dizer que tal jogador (no caso, Roger, do Corínthians) havia "desdenhado" de outro time (no caso, o São Paulo), "complicando ainda mais a situação de rivalidade entre os dois". Para dar essa importante "notícia", o jornalista usava um tom de voz que custei a reconhecer. Depois de muito pensar, lembrei-me da última vez que o ouvi: na escola primária, quando um colega de classe incitava outros dois à briga, dizendo "olha, xingou a mãe" ou "ah, essa eu não deixava barato", e assim por diante quando, na verdade, os dois contendores apenas murmuravam essas coisas um para o outro, para que ninguém os ouvisse. O colega incitador fazia, sem saber, lá nos idos da década de 60, o papel que certos jornalistas da atualidade puxaram para si, propagando resmungos, amplificando-os. Eles, expostos dessa maneira, não tiveram outra coisa a fazer que não fosse trocar mesmo uns inúteis e patéticos tabefes.
A verdade é que, na reportagem, Roger, quando perguntado sobre o que achava de enfrentar o São Paulo na rodada seguinte, disse apenas que, para o momento, só lhe interessava o Paraná Clube, porque os pontos que seu time podia ganhar enfrentando-o eram iguais aos que o jogo com o São Paulo podia oferecer. Roger, um profissional decente, só fez tentar responder a uma pergunta cretina e provocativa com uma resposta — pensava ele — sem possibilidade de duplas interpretações. A saída não foi eficaz. O jornalista queria sangue, e concluiu que Roger havia ofendido o São Paulo ao compará-lo com o Paraná Clube, time "menor" no entender do preconceito do jornalista. Quase em seguida, o técnico do Corínthians proibiu os jogadores de dar declarações à imprensa por algum tempo. No que fez muito bem.

Caso 2
Numa destas noites, José Luiz Datena, o furioso e inconformado jornalista da TV Bandeirantes, exibiu um vídeo realizado ao lado de fora do estádio do Morumbi, horas antes do já citado clássico Corínthians versus São Paulo, em que o comandante de um pelotão da Guarda Civil Metropolitana aparecia dando instruções aos seus comandados. No vídeo — devidamente editado para só mostrar o que interessava à linha editorial do programa — o tal comandante da Guarda dizia: "Cabeça e pescoço, não, pelo amor de Deus! Mas daí para baixo, eliminem o oponente!". Em nenhum instante, me deixaram ouvir claramente sobre o que o comandante falava. Obviamente, não era sobre alguma técnica de kama-sutra, mas não posso ter certeza disso sem antes assistir ao vídeo completo, sem edição. Datena usou, abusou e se lambuzou no seu bordão preferido ("Isso é uma barbaridade!"), botou o presidente da OAB na tela para comentar o fato, chamou o tal comandante para gaguejar ao telefone, e só não foi pedir opinião ao diabo.
Vou esquecer que o jornalista trabalha na emissora de TV que mais desrespeita o espectador — ao enfiar perto de trinta minutos de propaganda numa hora de transmissão, além de vender horário pra qualquer igreja caça-níqueis que queira lhe comprar espaço — e ficar apenas com este caso isolado. Vou esquecer também que Datena sorri quando vê uma enchente, por perceber a oportunidade de começar a descer o pau na Prefeitura, fazendo questão de se esquecer de que os canos e rios das cidades entopem, principalmente, por causa do lixo que a população covardemente lhes despeja, direta e indiretamente, e que ele nunca menciona isso no ar porque é essa população que lhe dá a audiência, e não a Prefeitura.

Agora, voltando ao futebol, pergunto: qual a utilidade, a intenção, o resultado esperado de matérias como estas? Informar? Ou seria provocar mais sangue nos estádios para, assim, gerar mais notícias, para vender mais jornal e arrebanhar mais audiência. "Fazemos tudo pela sacrossanta audiência que nos paga os salários, amém", rezam hoje os "jornalistas", antes de se benzerem e pegarem seus microfones.
Isso não é informar. Enquanto o jornalismo, seja o esportivo ou não, continuar usando artifícios de retro-alimentação, não terá o meu respeito e minha credibilidade. Isso não é jornalismo. É ficção retroalimentada pela realidade. Ou vice-versa, sei lá.

 

Nº 35, out/05
A vida imita a arte (mas não deveria)
Depois de escrever O Falecido Mattia Pascal, Luigi Pirandello teve que ouvir poucas e boas. Aliás, nem poucas, nem tão boas. Os críticos da época disseram que o livro era um primor de inverossimilhança, que ali nada havia de possível, que era tudo um só absurdo e que, portanto, aquilo jamais devia ter sido escrito e publicado, visto que todas essas impossibilidades não passavam de um amontoado de asneiras inúteis, sem propósito. Além disso, xingaram-no tanto, espinafraram tanto com seu romance, que ele, um tipo daqueles que não leva desaforo para casa, escreveu e publicou em jornal a "Advertência sobre os Escrúpulos da Fantasia", que hoje é editada logo em seguida ao texto original do romance.
Nesse texto, Pirandello lhes respondeu copiando duas notícias de jornal — relato de impagáveis e absurdos fatos verídicos — adicionando-lhes um extenso comentário sobre elas, falando sobre os limites do artista, limites estes que a vida não tem. Destaco o seguinte parágrafo da Advertência: "Porque a vida, graças a todos os deslavados absurdos, pequenos e grandes, de que se acha tranqüilamente repleta, tem o inestimável privilégio de poder eximir-se daquela estupidíssima verossimilhança, à qual a arte considera seu dever obedecer."

É verdade. Os artistas não podem escrever qualquer coisa. Sempre haverá alguém que lhes diga "Ah, mas isto não poderia acontecer!". A vida, não: a vida pode escrever o que quiser. E, depois que a escreve, não há com quem reclamar. Está feito.
Meses depois, quando Pirandello estreou seu magnífico "Seis Personagens à Procura de um Autor", outro amontoado de parvoíces — segundo a crítica —, não fosse a polícia arrancá-lo do teatro pela porta dos fundos, enfiá-lo num táxi e exigir do motorista que só deixasse o carro parar quando a gasolina se acabasse, Pirandello não teria escrito mais coisa nenhuma, dado o pouco espaço e iluminação deficiente dos caixões de defunto que se usavam à época.
Mas por que trago Pirandello para esta coluna? À maneira dele, explico colando aqui uma frase pinçada de um jornal recente: "Você acha que este é o País que eu quero para os meus netos? Você acha justo acontecer uma coisa dessas comigo depois de tudo o que fiz pelo meu País? Neste momento, fica muito difícil pensar em voltar à política", disse Maluf, chorando e mostrando abatimento.
Definitivamente, é para nenhum crítico jamais voltar a dizer que um ficcionista errou a mão na ficção, exagerou. E já que o assunto é teatro, pergunto: acreditar no próprio personagem não é esquizofrenia? Ou o maluco serei eu?

 

Nº 34, ago/05
Cronicando
Hoje vinha para casa, entre um e outro destino, pensando na crônica. Não em uma, mas em todas. O que são, de onde vêm, para onde vão, essas coisas. Depois de falar sozinho por algum tempo, percebi que escrevia uma. A crônica é isso, um fiapo de pensamento, preso entre dois dentes, que vem fora na ponta de um palito que a cutuque.
Crônicas devem ser leves, efêmeras. Digestivas. Como biscoitinhos de nata, como um café no meio da tarde. O cronista seria, então, uma quituteira gorda que prepara e assa suas bolachas depois de ter escolhido ingredientes com mãos cuidadosas. A crônica, apesar do pouco sustento, deve sempre ser saborosa. E não grudar no céu da boca.
Crônica é a qualidade de qualquer doença persistente, que resista a tratamento. Deve também ter suas fases agudas. Pode ser causada por um microorganismo, uma disfunção, ou ser apenas produto da imaginação. O cronista, então, poderia ser um hipocondríaco, doente do mundo, que não cura sua doença, antes a sustenta.

Cronicar, verbo intransitivo. Não está no dicionário, ao menos não no que tenho à mão: minúsculo, dele não consta muita coisa. Preciso me lembrar de ver no maior. Mas não me importa, porque cronicar é a arte de se ater ao minúsculo e, por isso, faze-lo maior. E, quando algo for maior do que parece, diminuí-lo, se for conveniente. Experiências genéticas com as palavras, ou apenas infantis brincadeiras com binóculos? Cronicar seria a arte de colocar o binóculo na posição mais interessante, conforme o assunto.
Cronicar, no fim das contas, talvez seja apenas escrever uma carta. Uma carta para ninguém, uma carta para qualquer um. Como um bilhete dentro de uma garrafa, que só diz "Olá, estou aqui!". Quem decide se vai haver resposta é o mar. Ou Deus: o leitor.
Para mim, percebo, o mais difícil da crônica é terminá-la. Sempre sinto aquela sensação de não ter dito tudo, de que falta alguma coisa. Mas quando me lembro de que — com muita sorte! — só terei me esgotado quando estiver morto, relaxo e compreendo que terminar uma é me preparar para começar a próxima. Seja uma vida, seja uma crônica.

 

Nº 33, jul/05
Faltou luz mas era dia
Parte 1
Faltou luz às 9 horas da manhã. E eu cheio de coisas para fazer no computador! Liguei para o 0800 da Companhia. Depois de discar 3 para "Emergência ou Falta de Energia", e 3 de novo para "Falta de Energia em Sua (minha) Residência ou Estabelecimento Comercial" — ainda bem que a emergência não era assim tão emergencial —, atendeu-me a mocinha:
— Cida, bom dia! — diz ela, de quem tive o cuidado de trocar o nome.
— Nem tão bom dia assim, minha filha. Acabou de faltar energia aqui em casa, e como eu não ouvi explodir nada, tá com cara que é manutenção. Isso vai demorar?
— Qual o nome da rua, senhor? — pergunta ela, e eu digo.
— Um momento — pede a moça, mas me engana logo em seguida, fazendo-me esperar por uns quatro ou cinco momentos. Finalmente, volta.
— Senhor?
— Pois não. — responde o senhor, digo, eu.
— A previsão é de retorno às treze horas e trinta minutos.
— O quê? — espanto-me — E eu cheio de coisas pra fazer!
— Não posso fazer nada, senhor.
— Então somos dois, minha filha.
— ... — responde a moça.
— Você ainda está aí? — pergunto.
— Mais alguma coisa, senhor?
— Não, querida. Era só isso mesmo. — digo, desanimado. Na verdade, eu também queria que alguém lá fosse pro inferno, mas não ia dizer isso pra ela.
— A Companhia agradece a sua ligação. Tenha um bom dia.
— Duvido muito... — respondo, e ainda consigo ouvir dois segundos de silêncio antes que ela desligasse. Acho que a incomodei.

Agora me diga: para fazer um serviço desses, não bastava ter uma máquina igual àquelas que dizem o saldo no bank-fone?

Parte 2
Previsão de retorno: 13h30. Ora, fui pra rua. Ao sair, vi o caminhão da companhia começando a tirar os fios de um poste velho e passando-os para um novinho em folha, já de pé, ao lado. Uma e meia? Sei. Tinha que passar numa gráfica, comprar leite, aproveitava a falta de luz para isso. Aproveitei também para almoçar fora com minha mulher.
Fiz o que tinha que fazer e voltei à uma hora. A energia, obviamente, ainda não tinha feito o mesmo. Entrei, guardei as coisas, abri a janela do quarto e me deitei para ler um pouco.
Silêncio. Na calha, meia dúzia de maritacas conversam, às vezes calmamente, às vezes furiosas, discutindo problemas familiares de maritaca. Mais longe, um sabiá. Crianças brincando. Um cachorro. Bom.
À uma e vinte e cinco, a geladeira deu a partida. Alguém liga um compressor de água. Uma serra de mão. Alguns martelos (não sabia que martelos eram elétricos). Furadeira. O zelador da casa ao lado começa a aspirar a piscina. As maritacas voam. Não se ouve mais o sabiá.

Parte 3
São quatro e meia, e não consegui fazer quase nada. Estou até agora esperando que acabe a luz de novo.

 

Nº 32, jun/05
O pecado da burrice
A certa altura da vida, uma jovem senhora de Rio Claro, interior de São Paulo, percebeu-se, Deus sabe como, possuída por demônios. Temente de, com a evolução da doença, chegar a andar por aí vomitando abacate e falando com a voz do Tim Maia, saiu à procura de ajuda especializada.
O padre que a consultou (pois, nestes casos, um padre é a ajuda especializada), versado no assunto, mal lhe pôs os olhos, disse-lhe, cheio de piedade, que ela andava mesmo com "uma legião" (sic) por cima dos ombros.
Uma vez que a referida legião não tinha lá nenhuma boa vontade — muito pelo contrário, segundo ele — o pároco aproximou-se da jovem e agora preocupada senhora e, tão piedosamente quanto pôde, enfiou-lhe tamanho safanão pelas ventas adentro que ela deu dois rodopios e foi cair lá longe, por sobre algumas cadeiras da paróquia. Não impressionado pela cena — interpretada, provavelmente, como sendo mais um estratagema da "legião" para intimidá-lo em sua piedosa cruzada —, levantou cuidadosamente a jovem, preocupada e agora escoriada senhora do chão e, ato contínuo, seguiu no cumprimento de seu sagrado dever, aplicando-lhe a dose de tabefes que supôs adequada, tentando distribuir ao menos meia dúzia para cada legionário.

Os demônios, apavorados com semelhante recepção, saíram em desabalada carreira pela rua, arrastando consigo a jovem, preocupada, escoriada e agora apavorada senhora que, tão logo se viu fora do campo santo, desatou em fuga na direção de sua própria residência, ainda na péssima companhia da legião, mas bastante mais sossegada, visto ter se afastado do alcance dos piedosos braços do cura.
O padre, no entanto, além de piedoso, era também muito cumpridor de seus sacros deveres e, não se importando com a despesa de combustível de seu veículo particular, aboletou-se nele e seguiu também na direção do acampamento da legião, melhor dizendo, à casa da jovem, preocupada, escoriada, apavorada e agora escondida senhora. Lá chegando, encontrou a legião e sua — como dizer? — hospedeira, conversando com as vizinhas, a lamber feridas e a relatar-lhes como as tinha conseguido. O piedoso pároco estacionou então seu veículo e, tão logo saiu dele, pôs-se a dar seqüência ao exorcismo interrompido, insatisfeito pois que estava com o resultado, só encerrando suas sagradas atividades ao ouvir as sirenes da polícia, evadindo-se então do local com tanta pressa que chegou a se esquecer do próprio carro.
Agora, à luz dos fatos e conseqüências, diga-me: a burrice é ou não é o pior dos pecados?

 

Nº 31, mai/05
Nas estrelinhas

 

Primeiro, peço que você leia o cartaz. Depois, volte aqui para ler o resto.

Leu?
Pois é, aposto que você está se fartando de rir com a "ignorância" do Sr. Noel, certo? Então acompanhe a transcrição comentada:
ALO (percebam a cordialidade do redator: ele bem podia ter pulado esta palavra, e começado pela seguinte) ATENÇÃO (quando se fala a muita gente, é preciso pedir atenção, não?) QUANDO VOÇE SAIR DO BANHEIRO APAGAR A LUZ (ora, é óbvio, ecológica e economicamente falando) POR FAVOR (ele faz questão de sublinhar a cordialidade) OBRIGADO (de novo) .... (aqui ele faz uma pausa pra pensar, vê o tanto de papel sobrando e aproveita para mandar brasa nuns outros assuntos) OUTRAS COIZAS (lá vem ele...) VOCEIS QUE FUMÃN POR FAVOR NÃO JOGUE BITUCA DE CIGARROS EN QUAU QUER LUGAR (note que ele podia ter chamado os caras de porcos, mas não o fez!) _ _ (aqui, ele pensa mais um pouco) NÃO É PERMITIDO VOÇE ANDAR FUMANDO MACONHA_ _ _ (só não entendi por que ele sublinhou "fumando" e não "maconha" mas, em seguida, percebo o rabisco para completar a linha, que denota certo cuidado na diagramação) DENTRO DO CAMPIMG. RESPEITE A REGRA DO CAMPIMG (ora, não só do camping, mas do Código Civil!). OBRIGADO (educação é mesmo o diferencial desse sujeito. E já que ainda sobra papel, ele continua) NÃO ANDAR GRITANDO NEIN DE DIA NEIN DI NOITE (imagine que espécie de clientes esse homem tem que aturar, coitado!). OKEI (sempre é bom perguntar, para ver se todos entenderam) TODOS VÃO GOSTAR DE VOÇE PRINCIPALMENTE O CAMPING (daqui em diante, ele demonstra toda a fé que tem na humanidade e ainda espera ter ensinado alguma coisa à canalhada!) VOCE É UMA PESSOA BEM EDUCADA (sei!) ENTÃO FAÇA ISTO QUE VOÇE VAI EN QUAL QUER LUGAR (chega a ser paternal, não?) VOÇE CERA BEM VINDO OU BEM INDO (qual é a graça? Se fosse Guimarães Rosa a escrever "bem indo", todo mundo ia achar o máximo...). NOEL AGRADECE A TODOS_ A COMPRIENÇÂO (estou me afeiçoando a ele, sabe?) E QUE DEUS NOSSO CRIADOR A BEMSSOIE A TODOS (não é comovente?) AMÉM OBRIGADO <<<<<< (mais uns rabisquinhos pra encher lingüiça, e a data, encerrando o comunicado) 2005

Interessante perceber que o texto do cartaz é exatamente o mesmo que seria dito em voz alta à clientela. É discurso oral, e que comunica, dá o recado. Quase dá para ver o Sr. Noel subindo no banquinho e dando as instruções aos clientes.
Ainda está achando graça? Então me diga: quem você convidaria pra jantar? O Noel ou a clientela dele?

 

Nº 30, mar/05
O ônibus dos horrores
Quando comecei a escrever este artigo, Karol Wojtila estava à morte. Agora, enquanto o reviso, fico sabendo que sua agonia terminou. Uma vez que não se pode dizer que o Papa tenha morrido de repente — porque o fez durante os últimos dez anos —, podemos concluir que ando escrevendo um bocado devagar. E agora, bem feito: toca a remexer o texto inteiro.

***

Nos últimos dias — e não foram poucos — pudemos acompanhar a agonia de Karol Wojtila pela televisão. Pouco se pôde ver do fato em si, mas o que nos foi informado já foi mais que suficiente. Nos dias em que esteve internado, alguém punha o Santo Padre numa cadeira de rodas, levava-o à janela, balançava seu braço e, depois que a pequena e vigilante multidão o aplaudisse, empurravam-no de volta à cama, lugar de onde não deveriam tê-lo tirado, dada a sua debilidade física. Depois dessa horripilante cena de teatro de fantoches, a multidão orava. Depois aparecia um médico que dizia que o Papa tinha uma infecção na laringe. Ou que lhe tinha sido feita uma traqueostomia para que respirasse melhor. Ou que tinha agora uma outra infecção, desta vez na bexiga e arredores, e que agora estava sendo alimentado por meio de uma sonda enfiada no nariz. Para tornar o quadro ainda mais triste, há anos já sabíamos que o Papa era portador de Mal de Parkinson, doença degenerativa do sistema nervoso, que dificultava qualquer atividade sua, fosse a respiração, fosse um daqueles assustadores acenos dados pela janela do quarto.
Finalmente, não sem algum alívio, vimos um cardeal dizer que o Papa já estava com Deus, maneira bastante poética de fechar as cortinas desse circo de horrores.

***

Quando eu era moleque, via estacionar, aos domingos, um estranho e multicolorido ônibus por perto da padaria do meu pai. Era uma jardineira já velha, os vidros e a lataria pintados com figuras apavorantes: enormes insetos, vampiros, gorilas ferozes. Contaram-me que quem pagasse o ingresso podia andar entre jarras e esquifes a admirar aranhas e jacarés empalhados, ou pedaços supostamente decepados de seres humanos monstruosos, ou ainda o esqueleto de uma mulher de duas cabeças. O ônibus era uma espécie de “susto delivery”. As pessoas entravam pela porta da frente, atravessavam-no horrorizando-se um pouquinho, desciam pela porta de trás, e iam tomar sua cervejinha na padaria, discutindo o último resultado do futebol, beliscando uma mortadela. Estavam felizes, porque já haviam consumido seu quinhão de horror para aqueles dias.

***

Não sei por que, hoje, quando abro um jornal, sinto que estou dentro desse ônibus. Me parece que a civilização se tornou uma máquina de fazer suco. E que a imprensa fornece a matéria prima: as pessoas.
Tenho saudade de um tempo que não vivi, em que as notícias viajavam a cavalo, e só tinham direito ao lombo do animal as que fossem realmente importantes. Tenho saudade de um tempo em que os boletins médicos não tinham nenhuma importância. Que diferença faria saber que Tiradentes morreu em conseqüência da fratura da vértebra C4, ocasionada pela queda do cadafalso em oposição à tensão da corda? Ou que o passamento de Cristo foi resultado de falência múltipla dos órgãos, provocada pela severa hemorragia que lhe foi infligida?
Informar, na minha opinião, não passa por deflorar o objeto da informação. Não quero que me selecionem o que preciso ouvir. Quero que me mostrem o que mostrariam se sentissem um mínimo de respeito pelo noticiado. Basta-me saber que o Papa morreu. Não quero ver as fotos da autópsia.

 

Nº 29, mar/05
E quem guarda os guardas?
Ando arrepiado com o que tenho encontrado pela Internet. Arrepiado de medo. Não sei se por acaso, o que tenho lido, ultimamente, nos comentários de blogs, tem sido realmente estarrecedor.
É de se supor que o usuário da Internet seja, na média, alguém com um pouco mais de escola, dinheiro e, portanto, cultura. Ter cultura, na minha cabecinha tonta, significaria uma quase obrigação de ter, também, um pouco de decência. Bobagem. Para mim, os últimos dias comprovaram, de uma vez por todas, coisas de que eu já desconfiava há tempos: escola e dinheiro nunca fizeram gente decente. Explico.

1) Gerald Thomas é um cara polêmico. Se alguém quiser discutir seu valor artístico, que comece considerando sua extensa carreira, o respeito que obteve junto à classe teatral e o tamanho do seu currículo. Visitando o blog dele (leia antes que acabe, porque ele tá muito puto), administrado pela amiga Ana Peluso, o que pude ler pelos comentários é, pra dizer o mínimo, apavorante. Se eu fosse resumir o que encontrei em três palavras, escreveria “Suma, viado nojento”. O que é isso? Uma nova maneira de fazer critica teatral?
2) Em seguida, dali mesmo, vou de link ao blog do Tas, escrito por uma das mais brilhantes cabeças (em todos os sentidos) da tv e da cultura brasileiras, o carequinha Marcelo Tas. Pois o menino resolveu dizer num post que acha que São Paulo vira um inferno na época do Natal, coisa que qualquer cidadão daqui pode comprovar em quinhentos metros de caminhada pela região que escolher. A certa altura, Marcelo menciona os estrangeiros das cidades vizinhas (e nem tão vizinhas) que por aqui abundam em dezembro. Pronto, foi o suficiente. Porrada nele! Se resumíssemos novamente os comentários em poucas palavras, teríamos apenas “Morra, xenófobo filho da puta”. Num dos comentários, expelido por alguém em absoluto descontrole emocional, pude ler “Deixa de ser preconceituoso, seu careca viado!”. Peraí! Quem é o preconceituoso nessa história?
3) Saio de lá, vou pro Inagaki, e leio a nota de lançamento do novo personagem do Maurício de Souza, um blogueirinho que fala td axim, du jeitinhu q as patis fofuxas ixcrevem nus seus bloguinhus, flw? E nos comentários, como não podia deixar de ser, lá vêm a classe pensante deste país, a despejar seu ranço arcaico: “Isso é um absurdo!”, “Aprendi a ler com a turma da Mônica, e acho que meus filhos também têm esse direito!”, ou então “Já achava o Chico Bento um acinte, que dirá esse novo personagem”. Bêbados de preconceito, nem conseguem perceber que a língua é um ser vivo como qualquer outro, e que é com essas pequenas mutações que ela há de evoluir, independentemente da opinião deles. Se esquecem também que terão muita sorte se ainda conseguirem ver essa nova linguagem, retratada e codificada nas gramáticas dos seus netos. Evoluir não significa melhorar. Significa apenas mudar.
4) Outro dia, um amigo me contava que retirou um blog dos seus favoritos quando percebeu, num texto, todo o anti-semitismo do autor, que comparava judeus a porcos, usando um trocadilho que eu me esqueci e, diga-se passagem, nem quero me lembrar.

O que mais me espanta nisso tudo é perceber que todo esse preconceito é perpetrado por honestos defensores de alguma coisa importante: os defensores da decência descem o pau no Gerald Thomas porque ele mostrou a bunda não sei pra quem; os defensores do direito de ir e vir descem o pau no Tas porque mencionou o caos que os turistas ajudam a construir na cidade; os defensores da Língua descem o pau no Maurício de Souza porque acreditam que ele esteja colaborando com sua destruição; e os defensores de sei-lá-o-quê, descem o pau nos judeus por causa do imbecil do Sharon.
É por essas e por outras que meu blog NUNCA vai ter comentários abertos. Eu quero, aqui, falar o que bem entender, e se alguém quiser retrucar com alguma merda dessas, que se identifique e o faça diretamente para mim, por e-mail. Meus estimados leitores não são obrigados e ler indecências desse calibre. Desse calibre, não.
E que Deus me defenda dos defensores de alguma coisa.

 

Nº 28, jan/05
Em chamas
Minha cor — algo entre o leite e o palmito — nunca permitiu que me deixasse estar numa praia ou à beira da piscina por mais de uma hora. Se quisesse mais que isso, teria que me fazer valer dos horários mortos, isto é, até às 9 da manhã ou depois das 5 da tarde, horários em que, criteriosamente, não acontece nada de interessante numa praia.
Sempre fui destes tipos que se queimam dentro de casa e cedo aprendi que, se não respeitasse cuidadosamente os horários seguros, amargava uma noite em claro, mais por não ter como me deitar do que propriamente por falta de sono. Cheguei a fazer relógios de sol com palitos de sorvete enfiados na areia, para não perder a hora. A sensação de pele ardida é uma lembrança que me acompanha desde a mais tenra (e branca) idade.
Sendo assim, já nessa tenra idade, tive de ser apresentado a um tal Picrato de Butesin. Se eu lhe disser que isso é o nome de um remédio, você logo vai imaginar uma meleca milagrosa, de aspecto e odor repugnante, produzida por uma bruxa verruguenta que mora numa caverna cheia de morcegos. Pois tire a bruxa e seus predicados, e você terá chegado à descrição perfeita da gosma. É um creme amarelo com cheiro amargo, que derrete ao contato com sua pele escaldante e se desfaz pelas costas abaixo (ou pela parte que você, descuidadamente, expôs à radiação), borrando calções, camisetas, meias, lençóis, fronhas e o que mais passar por perto, deixando você com o aspecto de quem foi assoado do nariz de um dragão há poucos instantes. Repugnante. Confesso que achava graça, indo à noitinha até a padaria, logo depois de uma sessão de Picrato, comprar o leite do dia seguinte e enojar os desavisados fregueses que lá estivessem.
Pelo começo da década de 80, numa viagem que fiz com os amigos para a praia, depois de passarmos a noite acordados jogando baralho, resolvemos aproveitar o resto da energia que nos sobrava para ir ver o sol nascer. Como o céu estava muito nublado, precisou dar nove da manhã para que começássemos a chegar à conclusão de que o sol já tinha cumprido sua tarefa há muito tempo, e que nós éramos mesmo imbecis para estar ali, a olhar o horizonte feitos mulher de pescador. Uns debandaram para dormir em casa, outros — incluindo eu — ficamos a jogar bola. Quando uma avassaladora fome fez roncar os estômagos (lá para as três da tarde) fomos atrás dos primeiros. Mas a burrada já estava feita: antes do fim do dia, eu já reluzia em tons de carmim e escarlate, e me sentia literalmente à beira da porta do inferno. E tivemos que ir atrás do remédio.
Entramos todos no carro (eu dirigindo sem me encostar no banco) e fomos ao centro, procurar uma farmácia. O problema é que eu...
— Não me lembro do nome do remédio... Tem alguma coisa a ver com Botequim... — disse eu.
— Ah, não é possível! — estranhou um.

— Eu sei que não possível. Mas é algo assim... Pugilato de Botequim...
— Você não vai chegar na farmácia e pedir Pugilato de Botequim, vai?
— Se eu não lembrar do nome certo, vou. — garanti.
Os quilômetros passaram, fez-se o silêncio, e cada um foi pensar no que mais lhe agradava. Eu, que permaneci escarafunchando a memória, continuei no assunto. De repente, o nome me veio à lembrança, e eu não pude conter o grito:
— Picrato de Butesin!!
— Xi, endoidou... — murmurou um.
— Endoidei nada! É o nome do remédio!
— Ah... — respiraram todos, aliviados.
Chegamos à farmácia. Encostei no balcão, ao lado de um japonês que já não fazia parte da raça amarela, visto estar quase da mesma cor que eu. Quando um balconista chegou perto, lhe perguntei:
— Você tem Picrato de Butesin?
— Tenho. — ele respondeu.
— Me dê uma bisnaga, pelo amor de Deus.
— É pra já! — disse ele, indo em direção à prateleira.
O japonês, que assistia a tudo, voltou-se para mim e perguntou:
— Isso é pomada pra queimadura?
— É, sim — respondi. — E das boas.
Quando o balconista voltou com a bisnaga, o japonês emendou:
— Eu quero uma também. Se ele vai levar, isso deve ser muito bom.
Quase lhe dei um tapinha nas costas, aprovando a sábia atitude. Parei a mão a tempo. Ele teria cometido hara-kiri. Em mim.
De outra vez, na Bahia, tive menos sorte. Entrei numa farmácia, com a barriga vermelha como uma Ferrari, e perguntei à negríssima balconista:
— A senhora tem Picrato de Butesin?
— Sinhô?
— Picrato de Butesin. — esclareci — É uma pomada pra queimadura.
— Tenho não sinhô. Pra queimadura, o que eu tenho é Caladril.
— E isso é bom?
— Não sei não sinhô. Eu mesma nunca usei.
— Vá lá, me dê um, por favor.
— Sim sinhô. — disse ela, se afastando em busca do produto, arrastando as chinelas, numa velocidade incoerente com a minha urgência. Demorou uma vida e trouxe um frasco sujo, coberto de poeira que, estranhamente, ainda estava no prazo de validade.
— Isso presta? — perguntei, duvidando do aspecto do produto desconhecido.
— E eu sei, moço? Aqui ninguém se queima. Só tem preto nessa terra! — E riu.

 

Nº 27, dez/04
Café com leite, pão com vergonha
Estacionamos o carro na padaria, e fomos em direção à porta. Um menino sentado na calçada nos pergunta:
— Posso tomar conta? — apontando meu carro com o dedo tímido.
Nem tomei conhecimento. Se tem uma coisa que não suporto numa cidade grande é a instituição do flanelinha, um sujeito que (em certos casos, é verdade) assume a propriedade da rua e passa a cobrar uma tarifa pré-determinada por ele mesmo para que se tenha a honra de se estacionar por ali, sem que ele se sinta na obrigação de devolver nenhuma garantia ou segurança. Pior que isso, no caso do menino em questão, me irrita ainda mais imaginar sua mãe despachando-o para a rua num sábado de manhã para faturar uns trocados, tomando o cuidado de ensaiar com ele um convincente olhar de auto-comiseração. Em troca disso, o que eu sinto é ódio. Sou humano, e não Jesus Cristo.
Entramos na padaria, e começou um diálogo mais ou menos assim entre mim e minha mulher:
— Não agüento isso. Odeio flanelinha. Acaba com meu bom-humor. — resmunguei.
— Flanelinha? Coitado do menino! Ele está ali tentando conseguir algum dinheiro pra comer alguma coisa!
— Se está com fome, por que não me pede comida? — continuo a resmungar.
— Então, espera aí... — disse ela, encerrando o diálogo inútil.
Levantou-se, atravessou o salão da padaria, foi lá fora, e eu pude vê-la perguntando alguma coisa para o menino. Ele fez que sim com a cabeça, e entrou na padaria atrás dela. Chegou ao salão sorrindo nervoso, mais nervoso que sorrindo e, de repente, eu pude ver o mendigo durante a Idade Média, convidado aos fundos da cozinha do convento para se fartar com três punhados de lixo e sumir dali o mais rápido que pudesse, debaixo de muitos agradecimentos aos monges e a Deus.

O menino se aproximou do balcão e minha mulher disse alguma coisa a um dos garçons que, imediatamente, apontou um canto para que o menino fosse se sentar, longe dos fregueses, diminuindo o risco de os incomodar. O filme, que até este instante era mudo, tornou-se falado, e eu pude ouvir, mesmo ao longe, minha mulher dizer ao garçom:
— Não, no canto, não! Se ele não pode ficar no balcão, vai se sentar numa mesa!
Somos fregueses de respeito nessa padaria. Dizer "não" para um de nós é se arriscar a perder os dois. O menino, então, sem mais demora, foi conduzido a uma das mesas. Quando teve certeza de que ele estava bem instalado, minha mulher passou a mão na cabeça dele e, sem mais palavras, voltou para onde eu estava.
— Café com leite, pão com manteiga. — disse, quando se sentou — Que tal, agora? Tudo certo? — e eu não tinha o que responder porque, naquela hora, estava tudo tão certo quanto poderia estar.
Daí pra frente, mal pude desviar o olhar do menino. Ele observava a padaria por dentro, talvez de um ponto de vista inédito, interessadíssimo, atento a detalhes, caras, roupas, a tv pendurada no alto, as vozes. Sua cara era a da criança que, pela primeira vez, botava os olhos num avestruz. O sorriso — que ele se empenhava para que não se abrisse — era indescritível.
O café e o pão chegaram à sua mesa pelas mãos do garçom. Talvez nunca tivesse sido servido antes. Ele adoçou o café com leite, mexeu com cuidado para não derramar nenhuma gota, e começou a comer tudo devagar, pedaço por pedaço, gole por gole, cuidando de molhar o pão a cada bocado, como fazem as pessoas de bom senso. Terminados ambos, levantou-se e, talvez exercitando a limpeza natural do nosso povo, talvez apenas aproveitando a oportunidade de ficar um pouco mais lá dentro da padaria, foi à pia lavar as mãos. Enxugou-as em papel, depositou-o na lixeira e foi lá pra fora, assumir seu posto de vigilante, momentaneamente abandonado.
Terminados os nossos próprios pães, pagamos a conta e saímos da padaria. Ao passar pelo menino, ele olhou minha mulher nos olhos e disse obrigado. Não pude mais olhar para ele, eu estava trincado de vergonha. Me senti um pateta que só sabe resmungar, e vi que o menino não precisava dos meus resmungos. Ele precisava (e precisará amanhã, novamente) de um pão com manteiga, de uma mão na cabeça, de acesso ao mundo que também é dele, de água e sabão para poder continuar a ser o que é: limpo. Eu, amanhã, novamente, só terei palavras.
Para que eu fizesse mais, não seria preciso ser Jesus Cristo. Bastaria ser humano.

 

Nº 26, jan/04
Entre mortos e feridos
— Oi! — ela disse quando atendi o telefone. Estava alegre, bastava o oi para que se percebesse. Estava quase alegre. "Que bom", pensei, "já fazia tempo".
— Tudo bem? — perguntei.
— Tudo. — e riu de leve, quase uma tosse. Fez uma pausa.
— Diga. — disse eu, pensando no que a faria telefonar assim, no meio da manhã, horário estranho mesmo para ela, que tinha passado anos me telefonando, mas quase nunca antes do almoço.
— Não sei. Deu vontade de ligar. Fazia tempo que não ligava pra você de manhã.
— É verdade, muito tempo. Pensei nisso agora mesmo. Anos?
— Eu achei que você pudesse ter pensado nisso. Engraçado, não é? Como a gente se conhece...
— É mesmo. Conheço tanto, que acho que você está com algum problema mas não quer me dizer, Nora. — pensei um pouco — Mas ao mesmo tempo, também quero estar enganado, não quero você com problemas.
— Pois é, isso é amizade. Eu sei como é. Sentiria o mesmo que você, se não estivesse tão confusa. — disse ela.
Outra pausa. Quem volta a falar sou eu:
— Conta, Nora, o que há?
— Nada, eu já disse — e me impressionou como a voz tinha mudado, a tristeza por detrás da fala — estou bem. — mentiu — Liguei só pra dizer que vi, daqui da janela da sala, uma menina lendo um livro meu, dentro de um carro parado no sinal.
— Que ótimo! — embarquei. — E que livro era?
— Não sei. — e parou de novo. Quando continuou, a voz tremia, quase chorava — Eu ainda não o escrevi.
Gelei inteiro, o sangue endureceu. Ai Deus, não de novo!
— O que você disse, Nora? — e eu quis ter ouvido errado, quis que ela tivesse dito outra coisa qualquer que se parecesse com isso. Ela calada, eu a ouvia respirar. — Nora?
— Não estou bem, querido. Eu sei que não estou bem. — disse ela, calma, muito calma, sem nenhuma tristeza.
— Nora, onde você está?
— Em casa, eu já não disse?
— Sim, eu sei, mas em casa onde? Na sala?
— É, na sala, eu já disse. Em pé no meio da sala.
— Nora, senta na poltrona, relaxa, querida. Tira os sapatos, faz qualquer coisa pra relaxar, eu estou indo praí. Não sai da sala de jeito nenhum, não sai até eu chegar, eu já estou indo. Faz o que eu estou pedindo, por favor — e eu falava sílaba por sílaba, como quisesse que ela decorasse o procedimento — Eu já estou chegando, em cinco minutos eu estou aí.
— Um beijo, meu amigo. — e ela me deixou em companhia do sinal de ocupado. Frio. Gelado. Pulsando.
No caminho até a casa de Nora, no táxi, berrei com o motorista para que andasse mais rápido, as lembranças de Nora pelas celas e corredores cadeia sirenes gritos pela noite, reboando pelas paredes de concreto, a tortura, ela passando arrastada de volta à cela, atirada ao chão, o som de saco de carne, Nora, batendo na laje, a dor e o abandono que tinham lhe arrancado o brilho dos olhos e o branco da pele, a cabeça raspada no lugar dos dedos pelos cabelos compridos, saí do táxi e corri os dois últimos quarteirões a pé entre carros e calçadas cheias de gente esbarrões tropeços encontrões, os gritos na cadeia, gritos altos, uivos, para que nós outros ouvíssemos, a mulher de pele coberta de cicatrizes e queimaduras que encontrei no pátio em dia de sol, unhas esfareladas de arranhar chão e paredes, nós dos dedos em cascas de sangue seco, o cheiro ruim, tão ruim quanto o meu, o sorriso cheio de lágrimas que deixou ver um dente a menos, subi as escadas e o terror que senti ao ver a porta meio aberta do apartamento, dois dedos de porta aberta, fresta por onde entrou meu medo, por onde tinha saído o amor próprio de Nora.
Encontrei-a no banheiro, caída, o rosto ao lado da privada, tudo e ela, tudo sujo de um vômito rosado que cheirava a açougue e água sanitária. Uma garrafa branca tombada. Ao sol, na beira da janela, a lata de soda cáustica aberta, uma colher enfiada no pó branco como Nora. Macia, morna, quase bonita. Morta.
Fui para a sala. Atravessei o sol que entrava pela janela e fazia o tapete colorido pintar tudo de mostarda, e me sentei na poltrona, a poltrona que tinha dito a ela para se sentar e me esperar, a poltrona de veludo cor de vinho, a poltrona que ela me disse um dia, na cadeia, que daria tudo para estar dez minutos sentada. Daria tudo para encostar o rosto no tapetinho que ela tinha colocado onde a cabeça encosta. Ela já teria dado tudo por dez minutos na poltrona.
Peguei o telefone, ainda perfumado da sua última ligação para mim, e chamei a polícia, sentindo o cheiro bom. Encostei a cabeça no tapetinho, olhei para o teto, fechei os olhos, e terminei de ler o último livro de Nora, ouvindo as sirenes ao longe.

 

Nº 25, out/04
Verdades refletidas no aço
Há uns quinze anos atrás, minha prima comprou um maravilhoso, estupendo e refulgente jogo de panelas de aço. Da primeira vez que as vi, ela estava sentada pelo meio de uma pilha de caixas de papelão de onde retirava, uma a uma, suas lustrosas beldades, admirando seu rosto refletido em cada um daqueles espelhos arredondados.
Na ocasião, ela fez questão de me mostrar a qualidade que tinham as panelas, avaliada, no seu entender, pelo peso de cada uma das peças. Realmente, pesavam como o diabo. A menor delas podia causar um bom estrago, se utilizada para fins de defesa pessoal. Se o peso fosse mesmo sinal de qualidade, aquelas eram as melhores panelas do mundo. Era um jogo completo, que ia desde uma imensa — quase um balde — para cozinhar massas, com escorredor removível embutido, até uma chaleira de apito, passando por toda a sorte de formatos e volumes, frigideiras e leiteiras. Quanto às tampas, a menor delas serviria de peso para papéis durante um tornado.
Pelo preço que tinham custado, logo se via que tudo era mesmo de altíssima qualidade. Deviam ter sido esculpidas em aço cirúrgico e polidas à mão por monges tailandeses. Percebia-se também que os fundos triplos eram em cobre lituano, e que a chaleira devia apitar em ré sustenido, afinada por uma clarinetista virgem da Sinfônica de Berlim.
Na ocasião, ela me confidenciou que havia comprado as panelas, mas que não iria usá-las. Aquilo tudo era apenas para lhe servir de incentivo: só as usaria no novo apartamento.
— Novo apartamento? Eu não sabia que você estava de mudança. — disse eu.
— E não estou! — disse ela — Comprei as panelas para usar no apartamento que ainda vou comprar. Quero estreá-las lá. — e sorriu.

— Mas... me diga uma coisa... — observei, espiando-a por detrás do monte de caixas e pacotes de onde havia saído toda aquela cangalhada — Sua cozinha está parecendo com um almoxarifado depois do terremoto. Enquanto você não compra o outro apartamento, vai ficar com esse monte de caixotes incomodando?
— Vou. — disse ela — Mais um motivo para sair logo daqui! — concluiu sorrindo.
O tempo voa. Minha prima passou seis anos terminando de juntar o dinheiro para comprar o outro apartamento, mais três anos procurando por ele, até encontrá-lo e comprá-lo. Passou todo esse tempo chutando caixotes e tropeçando em panelas. Tudo à guisa de — segundo ela mesma — incentivo.
Ela mora no novo apartamento já há uns sete anos. Estive lá no sábado passado. Costumo lhe fazer uma visita de vez em quando e, apesar de sempre procurar disfarçadamente pelas panelas, nunca as encontrei em funcionamento, à exceção da chaleira, que hoje não reflete mais nada e apita em mé suspendido, dado o uso intenso que teve nestes anos todos. Quando nosso jantar chegou à mesa, o arroz vinha numa dessas pretas, prosaicas e corriqueiras panelas de teflon. Não pude me conter:
— E agora me diga, por onde andam as panelas de aço? — perguntei.
— Ora, as panelas de aço... — ela resmungou — E quem consegue cozinhar com aquilo?
— E por que não? — continuei.
— Ah, aquilo pesa como o diabo!

 

Nº 24, set/04
Spam-dindo fronteiras
Começo traduzindo este título para os felizardos que ainda conseguem permanecer fora da Internet: "spam" é o nome dado a qualquer e-mail não solicitado que tenha fins de divulgação comercial. É uma versão eletrônica daquele folhetinho de cartomante que a gente sempre recebe quando anda pelas calçadas do centro, ou do cartão que você às vezes encontra preso à porta de seu veículo, dizendo que "se você quiser vender, comprar ou trocar seu carro, fale comigo". Nunca entendi porque deveria falar com ele para comprar meu próprio carro, mas isso é outra história. Há muita coisa que não entendo, e não é isso que me tira o sono.
A diferença básica entre um spam e as outras citadas formas de propaganda, é que você não pode rasgá-lo, picá-lo em cem pedacinhos, e cuspi-los longe depois de mastigá-los. Resta-lhe apenas a opção de apertar a teclinha onde se lê Excluir, e a coisa se exclui. Sem dor, sem espetáculos, sem sangue. E sem graça nenhuma.
Pois bem, entendidos que estamos, vamos ao fato. Recebi um spam (vindo de uma empresa no Colorado - EUA), que me oferecia a oportunidade de aprender dezoito idiomas por 26 dólares. Uma pechincha! Não pude evitar de ir ao site deles para dar uma espiadinha no produto. Mas quando vi a lista de idiomas, ou melhor, a ordem que lhes foi dada na lista, confesso que desanimei da minha babelesca empreitada. Eles não verão nenhum dos meus 26 dólares, os cretinos. Explico.
Se a lista começasse com Chinês — como, de fato, começa — seria de se supor que a ordem tivesse sido determinada em função do número de pessoas que falam o idioma atualmente. Sim, apenas seria de se supor, porque, se assim mesmo fosse, não encontraríamos o Francês em segundo lugar, e sim o Hindi.

Como vi Alemão e Italiano enumerados logo em seguida ao Francês, passei então a crer que a lista agora estivesse privilegiando os idiomas europeus. Mas, logo ao passo seguinte, encontrei o Japonês. Depois dele — voltando à Europa! — o Espanhol. Em seguida (ué!?), o Russo.
Mas... que raio de ordem é esta? Em seguida ao Russo, vi o Inglês, e já não era sem tempo! Depois dele, o Árabe. E daí, talvez mantendo a lógica do conhecimento geográfico dos norte-americanos, encontrei o "Brasileiro". (Uns parênteses: se há Brasileiro na lista, por que não há também o Argentino ou o Canadense? Não entendo. Mas fechemos os parênteses e sigamos em frente, que a coisa promete).
Dado mais um passo, tropecei no popularíssimo Dinamarquês, idioma imprescindível para quem quer ler os manuais de Lego no original. Daí, apareceram o Hebreu e o Coreano e, só por esta altura (pasme, depois de Hebreu, Coreano e Brasileiro) que fui encontrar o meu bom e velho Português, a única língua falada em todos os continentes habitados, o sexto idioma mais falado no mundo, superado apenas por Mandarim, Hindi, Espanhol, Inglês e Bengali, nesta ordem.
Pois a esta altura, já cansado, seguia heroicamente lista abaixo, já esperando por qualquer coisa. Imaginei que, até alcançar o final desta excrescência, ainda veria o Celta, o Aramaico e, quiçá, o Macedônio. Talvez até o Mexicano, por que não?
Mas a ficção sempre pode ser menos impressionante que a realidade pois, abaixo do Português, encontrei o Swahili (hein?), o Tagalog (hã?), o Tamil (o quê?) e o Zulu (é mesmo?). Ora, francamente...
Quando alguém souber de uma maneira de picar spam em cem pedacinhos, me avise. Mas não avise por e-mail, senão eu apago sem ler.

 

Nº 23, ago/04
Companhia Kafkafônica, bom dia!
Há muitos anos atrás, quando você precisasse obter alguma informação referente à sua linha telefônica, aproximava-se de seu Ericson cinza-ratinho, sacava-lhe o fone do gancho, e discava um discreto 103. Sim, eu escrevi certo: discava. Isso de teclar é dos tempos mais modernos.
Tenho telefone em casa desde 1970 e, desde essa época até o final dos anos 80, o 103 permaneceu intocado em sua nobre função. Um dia, algum funcionário que procurava motivo para empregar tios, cunhadas e vizinhos, criou as subdivisões do 103. Desse dia em diante, passamos a utilizar o mesmo 103, mas então seguido dos três primeiros algarismos do seu telefone, algarismos estes mais conhecidos pela alcunha de “prefixo”.
Houve então a Grande Cisão. Os assuntos relacionados a contas telefônicas e outras pendengas financeiras passaram a ser atendidos pelo 104 + os três primeiros algarismos do seu telefone. O 103 (e que você não se esquecesse de discar os três primeiros algarismos do seu telefone logo em seguida) atendia apenas a solicitações de manutenção, ereção de postes abalroados e remoção de ninhos de rato da caixa de distribuição do seu edifício. Passamos a ter, portanto, dois números diferentes para assuntos diferentes (sempre seguidos dos três primeiros algarismos do seu telefone, é importante lembrar).
Um dia, sem aviso prévio, fomos invadidos pelos espanhóis. Vinham com sede de botar ordem nesta tropical bagunça, e começaram pelo mais importante: destituíram o 103 e o 104 de seus cargos, e espetaram pelos nossos cornos seus dois substitutos espanhóis, quase tão compridos quanto uma espada de toureiro: o 0800-103103 e o 0800-104104 (ligações gratuitas, assim como os aposentados 103 e 104). À guisa de compensação, ficamos livres de fornecer os três primeiros algarismos do nosso telefone. Mas ninguém nos dava nem "bom-dia" se não confirmássemos nome e endereço do assinante, CPF e RG, coisas muito maiores que a espada do toureiro.
Pouco depois, não contentes com o sucesso dos números que haviam inventado (pois os teimosos assinantes continuavam a decorá-los e usá-los), começaram a alterá-los a intervalos irregulares, fazendo com que nunca se pudesse saber para qual número ligar na hora de um problema. E quem insistisse em sabê-lo, que telefonasse para o Auxílio à Lista, cujo número também era mudado a intervalos irregulares.
Até outro dia, aqui em São Paulo, quem quisesse falar com a companhia telefônica rapidamente, deveria fazer como eu fazia: entrava na Internet, ia ao site da companhia, buscava o link para Atendimento ao Assinante (haja paciência para continuar assinando alguma coisa depois disso tudo), e lá verificava o número que, até outro dia era 0800-7715104. E Deus sabe por quais tortuosos caminhos um pobre 104 teve que passar para se tornar um 7715, coitadinho!
Pois bem, hoje, de posse do número do dia, teclei-o (viu? as coisas mudam!) e ouvi, bestificado, a seguinte informação, dita por uma senhora muito animada: “A Telefonica agradece a sua ligação e informa: este número mudou para 103. Repetindo...”, e me repetiu o absurdo boca aberta adentro. Olha só! Isso que é evolução!
Agora só falta uma linha de telefone voltar a custar 6 mil dólares, como custava há 20 anos. Do jeito que vai, não demora muito.
Olé!