| Revista Entre Livros | |
Em ago.05, a revista Entre Livros publicou um
conto meu na seção Tinta Fresca, abrindo-a com o texto abaixo.Conheça o site da revista.
|
|
| Albano Ribeiro, um cronista
do desencontro por Pedro E. Urban
A literatura de Albano Ribeiro vem de duas
fontes. A primeira é familiar. Filho de pais portugueses contadores de histórias,
Albano, 45 anos, se considera uma versão por escrito dos dois. A segunda é
propriamente literária: vem de Eric Nepomuceno, mais conhecido como tradutor de Gabriel
García Márquez, e do americano Raymond Carver (1928-1988), autor de contos em que Robert
Altman se baseou para fazer o filme Short Cuts.
|
|
| (*) Fiz questão de manter a
versão integral do texto publicado, apesar de este ponto específico não corresponder à
realidade: minha carreira não começou no teatro.
|
|
| o conto: | Quarta à noite, depois do convite fora de hora Logo que dobrou a esquina, viu a mulher parada na calçada esperando por ele enfiada num jeans apertado de cima a baixo, oportunamente rasgado em alguns lugares. Mesmo de longe, podia ver os peitos saindo fora da jaqueta, esticando a camiseta de algodão branco. O sorriso dela quando viu seu carro o fez lembrar da Demi Moore, cabelos pretos curtos como em Ghost, mas mais bonita, até porque ela estava na calçada esperando por ele, e a Demi Moore não. Entrou no carro num solavanco, deixando-se cair sentada no assento, rindo alto, os olhos brilhando, bateu a porta com tal força, que era como se sobreviver dependesse de fechá-la na primeira tentativa, nem disse boa noite e saiu falando aquele filho da puta não queria que eu saísse, fez um puta barulho, quebrou um prato na parede e, quando eu pus a mão na maçaneta, ele me segurou pela roupa, disse que eu não ia sair de jeito nenhum. E o que você fez, ele perguntou. Eu meti a mão na cara dele, bem no meio do nariz, ela gargalhou e, para ilustrar a ação, deu um soco na mão esquerda aberta plaft com o olhar mais cheio de ódio misturado com alegria que ele já tinha visto. Por falta de coisa mais segura a fazer, ele riu um pouco também. E o que ele fez, ele perguntou. Ele caiu sentado, o bundão, ela respondeu. Toma um soco de uma mulher e cai sentado, pedaço de bosta, ela completou, e ele ficou pensando que não faria diferente se levasse um soco no nariz, ainda mais daquela mulher que tinha jeito de ser forte, e mais forte ainda com a cara cheia de cocaína como estava agora, como estava sempre. Ele dirigiu por uns três quarteirões, esperando que ela dissesse mais alguma coisa, reparando nos gomos de pele branca que pulavam para fora do jeans rasgado, e toda aquela saúde o fez ter vontade de a agarrar na cama e segurá-la contra o colchão, travando-lhe pernas e braços para ver o que ela era capaz de fazer enquanto ele a comesse, mas ela permaneceu em silêncio, o olhar baixo. Quando parou num sinal, virou para o lado e viu que ela olhava a palma da mão esquerda com certa tristeza no rosto que agora há pouco era fluorescente. Onde vamos, ele perguntou para mudar o assunto em que ela pensava. Pra qualquer lugar que venda tequila, ela respondeu. E que não se importe que eu beba duas garrafas, completou, e ele torceu para que ela tivesse uma nota de cinqüenta ali espremida em algum bolso, porque a noite ia ser cara e ele não tinha saído de casa para tanto. Andando pela calçada depois de estacionar o carro, ela o abraçou pela cintura com os dois braços e disse eu gosto de você. Entraram assim no bar, ela enrolada nele pela cintura, a cabeça na barriga. Que cheiro bom, ela disse, você passa perfume na barriga, perguntou. Sempre, ele respondeu, nunca se sabe quando um coala assustado vai pular na sua barriga. Ela riu e, quando o garçom se aproximou para acompanhá-los a uma mesa, ela já tinha se soltado, e agora andava tentando enfiar a camiseta justa para dentro da calça mais justa, sem sucesso. O garçom estendeu um cardápio e ele adiantou o serviço, pediu logo uma tequila e uma cerveja. Com sal e limão, ela completou, e o garçom fez uma cara que dizia é claro que é com sal e limão, nós sabemos que tequila sempre deve ser servida com sal e limão, e ele ficou pensando porque diabos a porra da tequila já não é engarrafada com sal e limão, já que não dá pra se beber aquela droga se não for temperada como um peixe assado. Ela pegou na mão dele, trouxe-a para perto do nariz e disse você todo cheira bem, e ele respondeu você também, mas estava fazendo referência à cocaína, e ainda bem que ela não tinha entendido a piada, porque não ia achar graça nenhuma. Ela colocou a mão dele sobre a mesa e a alisou com a ponta dos dedos, olhando nada. Apesar do corpo carnudo, tinha a mão pequena e, se não fosse a mímica de agora há pouco, ele não poderia imaginá-la capaz de esmurrar um marmanjo no nariz e derrubá-lo. As unhas curtas e tratadas sem pintura. A pele branca, macia, não tinha um pêlo. Ele empurrou um pouco a manga da jaqueta, procurando por um pêlo, não achou nenhum e se lembrou que não havia visto pêlos na carne que pulava para fora dos rasgados do jeans, mas isso também não queria dizer nada, porque as mulheres sempre depilam as pernas, no mínimo. Você não tem pêlos no braço, ele perguntou. Sou imberbe, ela respondeu. Ele riu e disse imberbe é quem não tem barba, e isso qualquer mulher é. Ah é, ela perguntou, achei que imberbe fosse quem não tivesse pêlos. Não, quem não tem pêlos é glabro ou, no seu caso, glabra. Nossa, que palavra horrível, ela disse rindo. Você não tem pêlo nenhum, ele perguntou interessado. Nenhum, ela respondeu sorrindo. Ele ficou calado enquanto alisava o braço dela, relembrando a cena imaginada no carro, e teve ainda mais vontade de a agarrar na cama e segurá-la contra o colchão, travando-lhe pernas e braços para ver o que ela era capaz de fazer enquanto ele a comesse, e se assustou pensando que aquilo pudesse ser alguma tara pedófila escondida numa dobra escura de seu subconsciente, e parou de pensar nisso porque o garçom chegou com a bandeja, e dela desceu uma garrafa de cerveja, e depois desceu uma taça vazia, e desceu a garrafa de tequila de onde ordenhou uma dose amarela dentro da taça, e depois um pratinho com quatro pirâmides de limão, e desceu outro pratinho cheio de sal, e ele ficou pensando o que mais haveria de descer da maldita bandeja, aquilo nunca mais acabava, e o garçom enfiou a bandeja embaixo de um braço, fez uma vênia rápida aprendida com algum sargento e saiu de cena. Ele teve a certeza de que, ao olhar o sal branco no pratinho, ela tinha se lembrado da mesma coisa que ele, mas não disse nada. Ela pegou uma colherzinha de plástico e, compenetrada, fez um cone de sal nas costas da mão, devolveu a colher ao prato, pegou uma pirâmide de limão e, ato contínuo, lambeu o sal, chupou o limão com força, virou a taça de tequila inteira dentro da boca, engoliu tudo, levantou-se esbarrando na mesa, puxou-o pela nuca e lhe deu um beijo tão forte e esmagado que quase o machucou, distraído que estava de tão atento, e com o tranco ele teve que estender os braços para segurar taça e garrafa e pratinhos que se espatifariam, não fosse sua ação rápida. Quando ela o largou, voltou a se sentar sorrindo, satisfeita, e ele se sentiu como o quarto ingrediente do ritual da tequila, um tanto idiota, mas com um gosto de limão salgado na boca que o fez entender que o peixe era ela, uma garoupa sem pêlos vestida em jeans rasgado, temperada com sal e limão, que tesão de mulher doida, meu deus! Ela procurou o garçom com os olhos, estendeu o braço, estalou os dedos e gritou garçom, outra tequila. Isso vai longe, ele pensou, mas na próxima ela não me pega de surpresa. Hoje eu quero trepar com você, ela disse, pegando-o de surpresa. Quero ir pra sua casa, e quero trepar a noite inteira, quero esquecer da cara daquele escroto do meu marido, imbecil, sentado no chão com o nariz escorrendo sangue, quero trepar com você de tudo que for jeito. Ele tentou disfarçar o susto mas não conseguiu. Assustei você, ela perguntou. É, um pouco, ele respondeu, mas me recupero logo, disse sorrindo sem graça. Onde esse preto se meteu, caralho, ela resmungou. Que preto, ele perguntou. O garçom, porra, foi só eu pedir a tequila que esse bosta desapareceu, ô raça desgraçada pra fugir do trabalho, nunca vi. Virou-se para ele e perguntou você tem pó em casa? Ele pensou que ela até lhe perguntaria isso se fosse asmática ou alérgica, mas disse não, não tenho pó em casa. Nem pó, nem fumo, nem tequila, completou. Ela fez uma cara decepcionada, assim como quem se decepciona com uma criança, e ele parou de tentar lembrar em que gaveta do armário tinha enfiado as camisinhas. O garçom se aproximou, sorriu e disse pois não. Como assim, pois não, seu cínico, eu lhe pedi outra tequila faz meia hora, e agora você chega aqui com essa cara de bunda, cheio de salamaleque como se não tivesse me ouvido, ela rosnou, tá achando que eu sou idiota? Não ouvi mesmo, senhora, o garçom murmurou educado, querendo abaixar o tom da conversa. O bar está um pouco cheio, fica difícil atender todo mu..., mas ela o interrompeu, vai buscar mais uma tequila e não enche meu saco, preto. O garçom abaixou a cabeça e saiu, sem vênia e sem dizer nada, em direção ao balcão. Não agüento essa raça, ela disse, e ele não conseguiu responder nada, uma seqüência de surpresas assim emudece qualquer um por hora e meia. Aproveitou do seu próprio silêncio, levantou-se e disse vou ao banheiro. Ela fez que sim com a cabeça e ele saiu em direção ao balcão, se misturando a alguns fregueses que esperavam mesa, alcançou o garçom, pegou no seu ombro e disse se eu fosse você, chamava a polícia. Boa noite, completou, olhando a cara desconcertada do garçom. Saiu do bar, pegou o carro e foi para casa pelo caminho mais longo, ouvindo um som qualquer de uma estação de rádio qualquer, pensando que nesta vida a gente encontra umas mulheres que só servem mesmo para... nada.
|