Uma pequena história de letras
Eu tinha uns quatro anos. Íamos por uma estrada, numa tarde quente, em algum lugar à roda de Lisboa. Meu pai dirigia o fusca e minha mãe segurava todas as alças que podia, gemendo no silencioso ataque de nervos que a acometia sempre que entrávamos num carro. Passei minha infância vendo-a agarrada às alças dos carros, putaqueparius se fossem fuscas. Meu pai, como sempre, dirigia calmamente, igonorando a energia negativa. Eu folheava um livro no banco de trás. Só o via, porque não era capaz de lê-lo. Pinóquio, O Gato de Botas, não sei... De repente, as imagens das letras fizeram uma palavra. Bem no meio da página, um "muito" olhava pra mim, cheio de sentido, gabola por se perceber notado. Pus o dedo abaixo da palavra, levei o livro às vistas de minha apavorada mãe, e lhe perguntei o que lá estava escrito. Ela confirmou: "muito", e agarrou o putaquepariu com mais força pois uma curva se aproximava. Retornei satisfeito ao meu encosto, feliz por ter aprendido a ler. Sozinho, sem que ninguém tivesse notado.

Nada profética, minha primeira palavra. Nunca tive muito de nada. Pior: aprendi a auto-suficiêcia, por desconhecer que isso não existe.

Aos cinco anos, voltando ao Brasil num navio, escrevi uma carta a um primo, num papel de embrulho pardo, a lápis, toda em maiúsculas, as palavras- separadas- por- tracinhos. A carta nunca foi entregue, e minha mãe a conservou por mais de trinta anos. Meu pai, numa crise de depressão, jogou-a fora. Custou muito, mas acabei por perdoá-lo.

Aos doze, comecei a escrever um diário. Lá pela quinta página, percebi que não tinha nada para dizer. Arranquei a parte escrita e usei o resto do papel como rascunho. Fiz muito bem.

Aos quinze, abri um jornal na escola, junto com um colega de classe. A idéia foi dele, e ele escrevia quase tudo. Fizemos uma pequena tiragem para o primeiro número e, em poucas semanas, rodávamos mais de mil exemplares por edição. As assinaturas entravam às centenas, um sucesso. Todos, estranhamente, queriam ler aquilo. Para os nossos padrões, nadávamos em dinheiro. Tínhamos o suficiente para tudo o que queríamos: fliperama, pastéis, fanta e o cinema do bairro. Foi a primeira vez que ganhei dinheiro escrevendo. Sobrou-me apenas um de todos os exemplares de todas as edições. Passei os olhos nele outro dia. Sinceramente, não sei como conseguimos vender tantas assinaturas.

Aos dezessete, mandei um texto para o jornaleco do pré-vestibular que cursava. Publicaram, talvez por falta de mais calhaus. Era uma pieguice qualquer sobre um sujeito que via coisas tristes, fome, guerra, medo. O tal sujeito se distraía e, quando voltava a olhar, o mundo não estava mais lá, tinha ido pelos ares. Uma bosta. Lembro que um colega de classe elogiou muito. Lembro também que, dias depois, esse mesmo colega me enxovalhou na frente dos outros por ter "descoberto" que meu texto era plágio. Xingou-me, apontou-me o dedo, ameaçou. Não entendi. Primeiro, aquele lixo era de minha exclusiva autoria. Segundo, e se tivesse sido plágio, por que ele estava tão zangado? Com essa, aprendi várias: não se aceita elogio, não se contraria maluco, e a qualidade do seu trabalho depende da ignorância alheia. No final do ano, saí do cursinho, o jornal fechou, e eu perdi o único exemplar que tinha.

Fiquei sem escrever por mais de vinte anos. Recomecei com crônicas, um poema aqui, um continho ali. Escrevi um roteiro, concorri ao Prêmio Estímulo da Secretaria de Cultura, ganhei o dinheiro para fazer o vídeo. Quatro meses de produção, e aprendi mais uma: escrever, vá lá; eu mesmo filmar o que escrever, nunca mais.

Hoje, tenho um monte de coisas espalhadas por aí, impressas, na Internet, encenadas e filmadas. Tenho também meia dúzia de projetos na cabeça, dúzia e meia de memórias que insistem em sair. Este site servirá para mostrar essas coisas.

E eu sigo escrevendo. Quando posso, quando tenho vontade, quando não dá pra ficar sem. Assim como cagar. E tanto numa quanto noutra necessidade, o papel tem tido a mesma importância, a mesma função, e eu tenho com ele o mesmo cuidado.